Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Reportagem

Fernando Pessoa, Vida e Obra.


 

Depois da nossa entrevista com Fernando Pessoa, a conversa prolongou-se, o autor mostrou-se interessado em saber mais sobre o nosso trabalho. Expressámos a nossa admiração pela sua obra e explicámos que estávamos a preparar uma reportagem sobre a sua vida. O poeta prontificou-se logo para nos falar mais um pouco acerca de si. Eis o que nos disse:

 
Nasci a 13 de Junho de 1888 e baptizei-me em Julho. Desse e de alguns anos à frente pouco me lembro. Lembro-me certamente do nascimento do meu irmão Jorge, quando eu tinha 4 anos e meio de idade, isto em Janeiro de 1893. Mas o que me fez não esquecer esse ano foi a morte de meu pai, que morreu tuberculoso exactamente um mês depois de meu quinto aniversário. As dificuldades aumentaram muito desde então os bens, que possuíamos na altura, tiveram de ser leiloados, mas o pior não era a falta de bens materiais, é que um ano depois de ter nascido o meu irmão Jorge morreu.
No ano de 1894, foi a primeira vez que me lembro de conhecer alguém “inexistente”, tinha assim nascido o meu primeiro heterónimo de nome Chevalier De Pas, do qual recebia e a quem enviava cartas. Em 1896, parti para a África do Sul. Era longe e o receio era muito, mas acabou por se revelar um marco importante na minha vida. A razão de tal partida, foi o casamento de minha mãe com o então cônsul português na África do Sul. O meu percurso escolar foi normal, sempre tendo um gosto especial por letras, e até ganhei o prémio Rainha Vitória pela melhor nota nos exames de admissão á universidade do Cabo. Em 1905 mudei-me definitivamente para Lisboa onde vivi em casa da minha avó Dionísia. A minha intenção era de me inscrever num curso de Letras e foi o que fiz, mas acabei por desistir do curso, e após a morte da minha avó, comecei a trabalhar em escritórios comerciais, nos quais exercia funções de correspondente estrangeiro.

 Sempre tinha no fundo um desejo de criar uma publicação literária, e em 1912 ela nasceu com o nome “Águia”. A escrita sempre desempenhou um papel importante na minha vida, mas naquele momento tudo parecia mais vivo dentro de mim, até ao ponto que a multiplicação de ideias e opiniões na minha cabeça intensificaram meu desejo de me desdobrar em muitos e foi mesmo nessa altura que me surgiram alguns heterónimos.

 O resultado, para meu agrado, da vontade de escrever mais foi a possibilidade de poder publicar no ano de 1915 outra revista chamada “Orpheu”. Os anos que se seguiram foram muito bons. No entanto, uma pessoa num dia está bem e noutro pode estar mal, psicologicamente eu não andava bem e fui-me abaixo com depressão. Conheci uma rapariga, Ofélia, com quem tive um relacionamento instável. Por isso, ás vezes, andava em baixo. Continuei a participar em varias publicações e até fundei uma editora. Em 1934 publiquei “Mensagem”. Do ano a seguir quase nada me lembro, apenas que meu único refugio era a bebida, até que a 20 de Novembro de 1935…


Histórias de vida como a minha devem haver muitas. Por isso, gosto mais de falar dos meus poemas, porque, apesar de tudo, eles são a transfiguração das minhas reflexões, da vida vista pelos meus olhos e para mim a minha vida foi muito mais do que factos, foram pensamentos e emoções vividas.

Como já disse foi aos seis anos que comecei a minha aventura pela heteronimia, meu amigo Chevalier não era o único, havia outros e até um rival deste, dai até começar a escrever poemas foram dias, Em 1895 já me lembro de compor alguns versos e após um tempo na Africa do sul já versava em inglês. Em 1914 foi o ano mais criativo que tive nasceram Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis…
Vejo, perfeitamente, os seus rostos, os gestos; imaginei para cada um deles, as idades, profissões e as vidas, dia do nascimento e morte.
Em momentos de desânimo, foi com eles que falei, desabafei e eles compreenderam-me sempre. São, de facto grandes amigos.

Acabámos por agradecemos-lhe a paciência que teve para nos “aturar” e ficámos a imaginar o que ele seria se tivesse nascido nesta época sofisticada do computador: Que grande génio!

Imagens:

 Fernando Pessoa 1894  em :wikipedia.org

 Heterónimo,por Costa Pineiro em: http://surlezinc.blogs.com/photos/uncategorized/fernando_opt.jpg 

 

publicado por banido às 16:43
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Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Entrevista

 

Os cinco alunos que constituem esta equipa “encontram-se” com Fernando Pessoa junto à sua estátua, no café “Brasileira” do Chiado, em Lisboa. Pedimos-lhe que falasse um pouco de si. Mas ele preferiu responder-nos com a sua obra. Da conversa tida, surgiram as palavras que se seguem.

Ana:
Sabemos que sofre, por pensar demasiado. Quer explicar-nos o que é propriamente a “Dor de pensar”?
Fernando Pessoa:
“ O que a mim sente está pensando / Eu gostava de ser como a ceifeira ou como o gato, bom servo das leis fatais / que regem pedras e gentes / que tem instintos gerais / e sente só o que sente.
André:
Então, para si, a poesia não se cruza com a vida?
Fernando Pessoa:
Cruza. Eu não disse que a vida, a “dor sentida”, não é a base da criação. Apenas que, uma vez, a “dor passada”a escrita, isto é, a poesia, já não é vida mesmo. É a representação mental da vida real.

Há por aí alguns estudiosos que consideram o “sino da minha aldeia” o da “ Igeja das Mártires” em Lisboa. Ora, Lisboa não é uma aldeia …

Eu apenas quis recordar uma “ infância que não tive”.

Gonçalo:
Como se pode  “recordar daquilo que não se viveu” ?
Fernando Pessoa:
Sabe a resposta é um pouco complicada …

É tentar viver uma infância que não se teve, é assim como se quisesse, em adulto, agora, ter aqueles, “mimos”, e ternura que as crianças costumam ter…

João:
Já percebemos que em criança já era um espírito sonhador… Então quando é que veio a ideia pela primeira vez, de “criar” personagens fictícias - os heterónimos?
Fernando Pessoa:

“O que parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade.”

Pedro:
Nós gostamos particularmente da sua obra “Mensagem” que, como compreende, nos lembra “Os Lusíadas”. Não tem receio de comparação entre as duas obras?  
Fernando Pessoa:
Na verdade, eu inspiro-me nessa grande obra “Os Lusíadas”.

Também refiro heróis, tal como o épico português, mas essas figuras, para mim, têm uma missão transcendente, Deus deu-lhes o poder de revelar o mundo, isto é, “cumpriu-se o Mar ”essas personagens funcionam como símbolos, avisos… e isso é uma visão da dos heróis d’os Lusíadas.

Ana:
Sabemos que enalteceu o papel dos primeiros Reis Portugueses na fundação da Nacionalidade : Qual o Rei que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
D.Dinis; poeta e visionário “Na noite escreve um seu Cantar de Amigo / o plantador de Naus a haver / …É o som presente desse mar futuro / é a voz de Terra ansiando pelo mar.

Isto, sem esquecer, naturalmente o nosso querido Rei D. Sebastião.

André:
Então qual o período da historia de Portugal que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
Os Descobrimentos, sem dúvida. Os Marinheiros Portugueses na ânsia do Desconhecido, sofreram “ Ó Mar Salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram / quantos filhos em vão rezaram / Quantas noivas ficaram por casar /

Para que fosses nosso, ó Mar!

Gonçalo:
Muitos países tiveram os seus impérios ultramarinos. Mesmo assim, porque acha que o mar sem fim é português?
Fernando Pessoa:
Na verdade, tem razão. Toda a Europa explorou os Oceanos, mas foi a Península Ibérica e Portugal em particular que permitiu uma ligação marítima directa entre a Europa e a Indía, unindo pela primeira vez mundos até então desconhecidos. Permitiu um encontro cultural de civilizações, por isso o mar português é um mar sem fim, permitiu que “ a Terra fosse toda uma / que o mar unisse, já não separasse.”

João:
Refere às vezes, o Quinto Império. O que falta a Portugal para ser “ o Quinto Império” ?
Fernando Pessoa:

A nação portuguesa necessita de uma renovação espiritual para alcançar essa visão que é o “Quinto Império”. Para isso, é importante que o Portugal onde “tudo é disperso, nada é inteiro” desapareça e o substitua um Portugal verdadeiro.

João:
Presumimos pela resposta que deu … que tem uma ideia do caminho para a “ Nova Índia”. Qual é então esse caminho?
Fernando Pessoa:
A “Nova Índia” será sempre “o porto por achar”. É “ a abstracta linha” de “distância imprecisa”que, por isso, não se alcança percorrendo um simples caminho. Só com muita vontade e ousadia é possível saborear essa conquista, a “Nova Índia”.

Pedro:
Gostávamos de saber por que mudou o título da obra de “Portugal” para “ Mensagem”?
Fernando Pessoa:
A “Mensagem” é um hino à nação portuguesa. Mas mais do que uma simples homenagem, é uma mensagem ao povo português, um recado, daí a mudança de um título demasiado concreto para um abstracto e correcto.

Pedro:
Sabemos que, por vezes, é difícil ao poeta apreciar a obra feita. Mesmo assim, atrevemo-nos a perguntar: Qual o poema da “ Mensagem “ que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
Por um lado, o poema “Infante” com que inicia a 2ª parte, porque o considero o herói que realizou o sonho que todo o português ambiciona. É certo que o conseguiu por vontade de Deus “ Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

Mas, por outro lado, o poema “ Mar Português” que veio a dar o título da 2ª parte da “ Mensagem”, também tem a minha preferência.

É que sabe “ quem quer passar além do Bojador, tem de passar além da dor.”

 

Ficámos com a sensação de que lhe apetecia dizer muita coisa sobre o que não lhe foi perguntado. Mas, optou por ser correcto e muito educado connosco, comedido como Ricardo Reis, vivo e atento como Alberto Caeiro.

 

Esta “entrevista” foi montada com palavras, frases e versos inteiros de poemas da sua obra: Ortónimo e “ Mensagem” e exertos da “Carta se Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro”


publicado por banido às 00:09
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Quinta-feira, 15 de Fevereiro de 2007

Cronologia

1888: Em Junho nasce Fernando António Nogueira Pessoa.

1893: O pai morre de tuberculose em 13 de Julho.

1894: cria seu primeiro heterónimo.
1895: Em Julho escreve seu primeiro poema.

1896: Parte com a mãe e Padrasto para África do Sul; .

1899: Ingressa na Durban High School em Abril; cria o pseudónimo Alexander Search.

1901: Começa a escrever as primeiras poesias em inglês; em Agosto, parte com a família para uma visita a Portugal.

1905: Parte definitivamente para Lisboa, onde passa a viver com a avó Dionísia. Continua a escrever poemas em inglês.

1906: Matricula-se, em Outubro, no Curso Superior de Letras. A mãe e o padrasto retornam a Lisboa e Pessoa volta a morar com eles.

1908: Começa a trabalhar como correspondente estrangeiro em escritórios comerciais.

1910: Escreve poesia e prosa em português, inglês e francês.

1912: Pessoa publica na revista "Águia" o seu primeiro artigo de crítica literária. Idealiza Ricardo Reis.

1914: Cria os heterónimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Escreve os poemas de O Guardador de Rebanhos e também Livro do Desassossego.

1915: Sai em Março o primeiro número de Orpheu. Pessoa "mata" Alberto Caeiro.

1916: Seu amigo Mário de Sá-Carneiro suicida-se.

1920: Conhece Ophélia Queiroz. 1921: Funda a editora Olisipo, onde publica poemas em inglês.

1924: Aparece a revista "Atena", dirigida por Fernando Pessoa e Ruy Vaz.

1925: Morre em Lisboa a mãe do poeta, em 17 de Março.

1927: Passa a colaborar com a revista "Presença".

1934: Publica "Mensagem".

1935: Em 29 de Novembro, é internado com o diagnóstico de cirrose. Morre no dia 30.

fonte:wikipedia

Fernando_Pessoa - Cronologia

publicado por banido às 23:55
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Fernando Pessoa, o poeta.

Fernando pessoa é considerado um dos maiores e mais representativos poetas do século XX. Teve uma vida discreta. Desdobrou-se em muitas outras pessoas com personalidades opostas, conhecidas como heterónimos. “A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além de ser o maior autor da heteronomia.”


Fonte wikipedia

publicado por banido às 13:16
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Quinta-feira, 8 de Fevereiro de 2007

A "Mensagem"

Imagem de:http://www.prahoje.com.br

Aqueles portugueses do futuro para quem porventura estas páginas encerrem qualquer lição, ou contenham qualquer esclarecimento, não devem esquecer que elas foram escritas numa época da Pátria em que havia minguado a estatura nacional  dos homens e falido a panaceia abstracta dos sistemas.[...]
Serão, talvez e oxalá, habitantes de um periodo mais feliz. [...] aqueles que lerem, aproveitando estas páginas arrancadas, na mágoa de um presente infeliz, á saudade de um futuro melhor.

Fernando Pessoa, Da República, Lisboa, 1978
publicado por banido às 23:20
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Os membros desta equipa Ana, André, Gonçalo, João e Pedro, vêm deixar o seu agradecimento a todas as pessoas que com eles colaboraram para a realização deste blog, em especial às Professoras Margarita Benito e Madalena Marques.

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