Sexta-feira, 16 de Fevereiro de 2007

Entrevista

 

Os cinco alunos que constituem esta equipa “encontram-se” com Fernando Pessoa junto à sua estátua, no café “Brasileira” do Chiado, em Lisboa. Pedimos-lhe que falasse um pouco de si. Mas ele preferiu responder-nos com a sua obra. Da conversa tida, surgiram as palavras que se seguem.

Ana:
Sabemos que sofre, por pensar demasiado. Quer explicar-nos o que é propriamente a “Dor de pensar”?
Fernando Pessoa:
“ O que a mim sente está pensando / Eu gostava de ser como a ceifeira ou como o gato, bom servo das leis fatais / que regem pedras e gentes / que tem instintos gerais / e sente só o que sente.
André:
Então, para si, a poesia não se cruza com a vida?
Fernando Pessoa:
Cruza. Eu não disse que a vida, a “dor sentida”, não é a base da criação. Apenas que, uma vez, a “dor passada”a escrita, isto é, a poesia, já não é vida mesmo. É a representação mental da vida real.

Há por aí alguns estudiosos que consideram o “sino da minha aldeia” o da “ Igeja das Mártires” em Lisboa. Ora, Lisboa não é uma aldeia …

Eu apenas quis recordar uma “ infância que não tive”.

Gonçalo:
Como se pode  “recordar daquilo que não se viveu” ?
Fernando Pessoa:
Sabe a resposta é um pouco complicada …

É tentar viver uma infância que não se teve, é assim como se quisesse, em adulto, agora, ter aqueles, “mimos”, e ternura que as crianças costumam ter…

João:
Já percebemos que em criança já era um espírito sonhador… Então quando é que veio a ideia pela primeira vez, de “criar” personagens fictícias - os heterónimos?
Fernando Pessoa:

“O que parece ter sido o meu primeiro heterónimo, ou antes, o meu primeiro conhecido inexistente – um certo Chevalier de Pas dos meus seis anos, por quem escrevia cartas dele a mim mesmo, e cuja figura, não inteiramente vaga, ainda conquista aquela parte da minha afeição que confina com a saudade.”

Pedro:
Nós gostamos particularmente da sua obra “Mensagem” que, como compreende, nos lembra “Os Lusíadas”. Não tem receio de comparação entre as duas obras?  
Fernando Pessoa:
Na verdade, eu inspiro-me nessa grande obra “Os Lusíadas”.

Também refiro heróis, tal como o épico português, mas essas figuras, para mim, têm uma missão transcendente, Deus deu-lhes o poder de revelar o mundo, isto é, “cumpriu-se o Mar ”essas personagens funcionam como símbolos, avisos… e isso é uma visão da dos heróis d’os Lusíadas.

Ana:
Sabemos que enalteceu o papel dos primeiros Reis Portugueses na fundação da Nacionalidade : Qual o Rei que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
D.Dinis; poeta e visionário “Na noite escreve um seu Cantar de Amigo / o plantador de Naus a haver / …É o som presente desse mar futuro / é a voz de Terra ansiando pelo mar.

Isto, sem esquecer, naturalmente o nosso querido Rei D. Sebastião.

André:
Então qual o período da historia de Portugal que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
Os Descobrimentos, sem dúvida. Os Marinheiros Portugueses na ânsia do Desconhecido, sofreram “ Ó Mar Salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram / quantos filhos em vão rezaram / Quantas noivas ficaram por casar /

Para que fosses nosso, ó Mar!

Gonçalo:
Muitos países tiveram os seus impérios ultramarinos. Mesmo assim, porque acha que o mar sem fim é português?
Fernando Pessoa:
Na verdade, tem razão. Toda a Europa explorou os Oceanos, mas foi a Península Ibérica e Portugal em particular que permitiu uma ligação marítima directa entre a Europa e a Indía, unindo pela primeira vez mundos até então desconhecidos. Permitiu um encontro cultural de civilizações, por isso o mar português é um mar sem fim, permitiu que “ a Terra fosse toda uma / que o mar unisse, já não separasse.”

João:
Refere às vezes, o Quinto Império. O que falta a Portugal para ser “ o Quinto Império” ?
Fernando Pessoa:

A nação portuguesa necessita de uma renovação espiritual para alcançar essa visão que é o “Quinto Império”. Para isso, é importante que o Portugal onde “tudo é disperso, nada é inteiro” desapareça e o substitua um Portugal verdadeiro.

João:
Presumimos pela resposta que deu … que tem uma ideia do caminho para a “ Nova Índia”. Qual é então esse caminho?
Fernando Pessoa:
A “Nova Índia” será sempre “o porto por achar”. É “ a abstracta linha” de “distância imprecisa”que, por isso, não se alcança percorrendo um simples caminho. Só com muita vontade e ousadia é possível saborear essa conquista, a “Nova Índia”.

Pedro:
Gostávamos de saber por que mudou o título da obra de “Portugal” para “ Mensagem”?
Fernando Pessoa:
A “Mensagem” é um hino à nação portuguesa. Mas mais do que uma simples homenagem, é uma mensagem ao povo português, um recado, daí a mudança de um título demasiado concreto para um abstracto e correcto.

Pedro:
Sabemos que, por vezes, é difícil ao poeta apreciar a obra feita. Mesmo assim, atrevemo-nos a perguntar: Qual o poema da “ Mensagem “ que mais aprecia?
Fernando Pessoa:
Por um lado, o poema “Infante” com que inicia a 2ª parte, porque o considero o herói que realizou o sonho que todo o português ambiciona. É certo que o conseguiu por vontade de Deus “ Deus quer, o homem sonha, a obra nasce”.

Mas, por outro lado, o poema “ Mar Português” que veio a dar o título da 2ª parte da “ Mensagem”, também tem a minha preferência.

É que sabe “ quem quer passar além do Bojador, tem de passar além da dor.”

 

Ficámos com a sensação de que lhe apetecia dizer muita coisa sobre o que não lhe foi perguntado. Mas, optou por ser correcto e muito educado connosco, comedido como Ricardo Reis, vivo e atento como Alberto Caeiro.

 

Esta “entrevista” foi montada com palavras, frases e versos inteiros de poemas da sua obra: Ortónimo e “ Mensagem” e exertos da “Carta se Fernando Pessoa a Adolfo Casais Monteiro”


publicado por banido às 00:09
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Os membros desta equipa Ana, André, Gonçalo, João e Pedro, vêm deixar o seu agradecimento a todas as pessoas que com eles colaboraram para a realização deste blog, em especial às Professoras Margarita Benito e Madalena Marques.

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